Devoradores de Estrelas | Jorge Luiz Calife analisa a ficção científica estrelada por Ryan Gosling

Devoradores de Estrelas | Jorge Luiz Calife analisa a ficção científica estrelada por Ryan Gosling
Redação Café com Nerd
8 mins de leitura

Na resenha de “Devoradores de Estrelas”, o escritor de ficção científica Jorge Luiz Calife apresenta o filme como um raro e empolgante exemplo de renovação dentro do cinema de ficção científica contemporâneo. O autor destaca a grandiosidade visual da obra, dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, ressaltando a experiência cinematográfica como essencial para apreciar plenamente a aventura espacial inspirada no romance de Andy Weir. Com entusiasmo nostálgico, Calife relaciona o longa aos grandes clássicos do gênero, valorizando sua combinação de emoção, rigor científico e espírito otimista, além da atuação de Ryan Gosling e da marcante amizade entre o protagonista e o alienígena Rocky.

Devoradores de Estrelas: Um sopro de ar fresco na ficção científica

Em uma época em que a produção cinematográfica, principalmente na área da ficção científica, encontra-se dominada pela mesmice dos remakes e das franquias, o filme “Devoradores do Estrelas”(Project Hail Mary no original) foi um bem vindo sopro de ar fresco. Um aventura espacial empolgante e alto astral como não víamos há muito tempo. Quando o filme dos diretores Phil Lord e Christopher Hiller chegou aos cinemas eu já tinha terminado o livro do escritor e coautor do roteiro, Andy Weir. E decidi que aquele era um filme que eu tinha que ver no cinema, com tela grande e som Dolby. Não me decepcionei. Quando o astrofage explodiu lá na tela o cinema estremeceu com a onda de choque. Tente conseguir isso em casa no seu home theater e os vizinhos chamarão a polícia. Devoradores de Estrelas é como o Interestelar do Nolan ou o 2001 do Kubrick. Um filme para ser visto no cinema, e não em telinhas domésticas.



A experiência do cinema segundo Ray Bradbury

A propósito, o grande escritor da Golden age da FC, o saudoso Ray Bradbury, contava uma história interessante. Bradbury vivia comentando com um amigo sobre um filme fabuloso que marcara sua juventude. O King Kong original, de 1933. Um dia o amigo chegou para ele e disse: “Vi King Kong, e daí?” E daí? Resmungou o escritor. Onde foi que você viu King Kong? Na televisão respondeu o sujeito. E Bradbury explodiu: – Televisão! Na televisão você coloca o King Kong no colo. Vá ver no cinema! No cinema é o King Kong que vai te pegar no colo!

A grandiosidade visual e sonora

Realmente, há filmes que exigem a comunhão de uma sala escura e a grandiosidade de uma tela de cinema. A passagem de Dave Bowman pelo portal das estrelas em 2001, o voo sobre o disco de acreção do buraco negro Gargantua em Interestelar ou a pescaria nas auroras boreais de Tau Ceti não foram feitas para serem diminuídas numa telinha de computador ou, pior ainda, de um celular. Sem falar na trilha sonora, na música dos filmes que ganha outra dimensão no cinema. Daniel Pemberton, que criou a música de Devoradores de Estrelas, não é nenhum John Williams mas fez um bom trabalho. Na cena da pescaria estelar a música está perfeita.




Harry Styles – Sign of the Times – Musica tema do filme


Mas vamos voltar um pouco no tempo e começar pelas origens. Afinal, como disse uma vez a princesa Irulan, o começo é um momento muito delicado. No final do século passado um dos seriados mais famosos da televisão era as aventuras do herói grego Hércules, interpretado pelo fortão Kevin Sorbo. A série fez tanto sucesso que gerou dois spin off: Xena a princesa guerreira e o jovem Hércules. Xena foi outro sucesso retumbante mas O Jovem Hércules fracassou, não completou nem uma temporada antes de ser tirada do ar. O protagonista, um jovem ator loiro chamado Ryan Gosling entrou numa depressão profunda. Kevin Sorbo ficou tão preocupado que deu um conselho para aquele rapaz de 18 anos. E disse para ele: “Não desanime, você é jovem, tem toda uma vida pela frente, um dia o sucesso ainda vai chegar”.

Ryan Gosling e a trajetória até o estrelato

Palavras proféticas: Vinte e cinco anos depois Ryan Gosling é o cara. Um colecionador de sucessos cinematográficos. Já dançou e sapateou no premiado “La la land”, foi o novo Blade Runner, pisou na Lua no papel do Neil Armstrong em “O primeiro homem” e ainda vai pilotar um caça X-wing no novo filme da franquia Star Wars, Starfighter. Ninguém estaria mais capacitado a interpretar Ryland Grace, o professor de ciências forçado a virar astronauta na nova aventura espacial do Andy Weir, o criador do sucesso “Perdido em Marte”.



Devoradores de Estrelas: A nostalgia dos clássicos da ficção científica

Aliás assistir Devoradores de Estrelas foi uma experiência que me levou de volta aos anos dourados da minha infância. A uma época perdida nos infinitos caminhos do tempo, quando eu era um moleque de dez anos e frequentava um cinema poeira na zona norte do Rio junto com meus colegas de escola. Um dos nossos filmes favoritos era o clássico “Robinson Crusoé em Marte” do diretor Byron Haskin. Tenho a impressão de que Andy Weir também deve ter curtido esse filme em algum lugar do passado. “Perdido em Marte”, que virou filme com o Matt Damon, é praticamente uma versão moderna da primeira parte do filme de 1964, quando o astronauta Kitty Draper aprende a sobreviver na paisagem desolada de Marte. Já Devoradores de estrelas seria a segunda parte, a amizade do herói com um alienígena vindo de uma estrela distante.

Devoradores de Estrelas: Rocky e a evolução dos alienígenas no cinema

Hoje os diretores contam com recursos com que os cineastas do passado não podiam nem sonhar. Na década de 1960 o único meio de mostrar um extraterrestre era maquilar e colocar próteses num ator humano. Por isso o alienígena de Robinson Crusoé em Marte parece mais um índio boliviano do que um visitante da constelação de Orion. Já em “Devoradores de Estrelas” a produção conseguiu criar um alienígena realmente convincente.

Uma criatura de silício que respira amônia e vive numa temperatura escaldante.

Criado por uma mistura de marionetes e computação gráfica o simpático Rocky é o amigo que o solitário astronauta precisa para salvar o mundo de um colapso estelar. E Gosling consegue vencer o desafio de emocionar a plateia contracenando com um boneco muito sofisticado.

Conclusão da resenha Devoradores de Estrelas

O filme é de uma beleza pictórica envolvente, e com uma base científica bem pesquisada, o que é a marca das criações do Andy Weir. Nota dez para a cenografia que criou o interior de uma nave espacial onde a gravidade artificial pode ser criada por dois métodos: Aceleração e rotação. E numa época tão deprimente como a atual, não existem muitos filmes que nos fazem sair do cinema com um sorriso nos lábios e uma sensação de alto astral.

Sim, tentem ver no cinema. E deixem a beleza do Universo coloca-los no colo. Ou enfrentem a ira de Ray Bradbury.

Conclusão: Cinco estrelas ou nota 10.


Quem é Jorge Luiz Calife?

Quem é Jorge Luiz Calife?

Jorge Luiz Calife é um dos mais importantes escritores brasileiros de ficção científica, reconhecido por suas obras que combinam ciência, filosofia e aventura espacial. Autor de livros marcantes como Padrões de Contato, Calife tornou-se referência nacional no gênero e foi uma das inspirações para o escritor britânico Arthur C. Clarke durante a criação de 2010: Odisseia Dois. Além da literatura, também atua como crítico e divulgador da ficção científica no Brasil, compartilhando análises sobre cinema, literatura e cultura nerd.

INSTAGRAM: instagram.com/jorgeluizcalife/

Saiba mais sobre o autor em: Jorge Luiz Calife


Devoradores de Estrelas | Jorge Luiz Calife analisa a ficção científica estrelada por Ryan Gosling

Outros artigos que você possa se interessar




Dicas de Filmes e Séries

Dicas de Livros