Valerie e a Semana das Maravilhas: quando crescer parece entrar num sonho
Há filmes que começam diante dos nossos olhos. Valerie e a Semana das Maravilhas começa um pouco antes, naquele instante em que ainda não sabemos se estamos assistindo a uma história ou lembrando de alguma coisa que sonhamos.
Valerie é uma adolescente que vive com a avó numa cidade que parece quieta demais para guardar tantos segredos. Então chega um cortejo circense. Um homem oferece a ela um par de brincos mágicos. A partir desse gesto aparentemente simples, a realidade se abre como uma porta mal fechada: o que era sonho pode ter acontecido; o que parecia ameaça talvez seja desejo; aquilo que parecia familiar ganha uma aparência estranha.
Se você chegou a este filme procurando uma fantasia surrealista tcheca, talvez esteja esperando uma aventura no sentido tradicional, com regras claras e uma explicação para cada símbolo. É melhor saber desde já: Valerie and Her Week of Wonders não quer conduzir você pela mão. O filme prefere caminhar ao seu lado, às vezes em silêncio, deixando que você perceba o medo antes de conseguir nomeá-lo.
Afinal, sobre o que é Valerie e a Semana das Maravilhas?
Dirigido por Jaromil Jireš e lançado em 1970, o filme acompanha uma semana decisiva na vida de Valerie, interpretada por Jaroslava Schallerová. Ela ainda está atravessando a infância, mas começa a notar o próprio corpo, o desejo, o olhar dos outros e as regras que tentam definir o que uma jovem pode ou não pode ser.
A chegada do circo rompe a rotina e inaugura uma espécie de despertar. Os brincos mágicos funcionam como um objeto de passagem: depois deles, Valerie já não enxerga o mundo da mesma maneira. A avó, a religião, a sexualidade, a ameaça e a fantasia deixam de ocupar lugares separados. Tudo se mistura.
É por isso que explicar o enredo de Valerie e a Semana das Maravilhas apenas como uma aventura de fantasia seria reduzir bastante a experiência. O filme fala sobre crescer, mas não transforma esse crescimento em uma lição edificante. Ao contrário: mostra a adolescência como um território confuso, povoado por curiosidade, medo, vergonha, encantamento e uma vontade nova de escolher o próprio caminho.
O que acontece quando a fantasia deixa de ser apenas fantasia?
Talvez essa seja a pergunta mais importante para entrar no filme. Valerie não se comporta como uma heroína que precisa derrotar um vilão e voltar para casa com uma resposta. Ela atravessa imagens, encontros e situações que parecem se repetir, como se estivesse tentando descobrir a verdade por trás das aparências.
A estrutura é deliberadamente circular e não linear. Uma pessoa pode parecer outra. Um acontecimento pode retornar com outra forma. Uma figura assustadora pode carregar algo de sedutor, enquanto uma presença familiar pode se tornar ameaçadora. O filme não organiza o mundo para tranquilizar Valerie — nem para tranquilizar quem assiste.
Essa escolha aproxima a obra de Alice no País das Maravilhas e de contos como Chapeuzinho Vermelho, mas a semelhança não está somente nos cenários fantásticos. Está sobretudo na sensação de atravessar um mundo adulto sem possuir ainda todas as ferramentas para compreendê-lo. Valerie entra na floresta simbólica dos contos de fada, só que essa floresta está cheia de normas sociais, desejos reprimidos e autoridades que dizem saber o que é certo.
A diferença é que, neste filme, a menina não é apenas alguém que precisa ser protegida. Ela observa, desconfia, deseja e começa a construir uma consciência própria. O encantamento dos brincos não serve apenas para criar magia. Ele parece dar a Valerie uma nova forma de olhar.
Por que os brincos mágicos são tão importantes?
Os brincos são o primeiro grande sinal de que alguma coisa mudou. Antes deles, Valerie pertence a uma casa, a uma família e a um conjunto de expectativas. Depois deles, sua percepção ganha movimento. Ela passa a experimentar o mundo de maneira mais intensa, como se cada encontro pudesse revelar um segredo escondido.
Um objeto mágico, nos contos tradicionais, costuma conceder poder. Aqui, o poder é menos prático e mais íntimo. Os brincos não transformam Valerie numa pessoa invencível. Eles parecem ampliar sua consciência — e consciência nem sempre traz conforto. Ver mais também significa perceber ameaças que antes ficavam disfarçadas.
É possível enxergar nesse elemento uma metáfora para a descoberta da sexualidade e para o início da autonomia. Valerie começa a entender que seu corpo não existe apenas dentro das regras estabelecidas pela avó, pela igreja ou pelos homens que a observam. Ainda assim, o filme não trata esse despertar como algo simples ou completamente libertador. O desejo aparece acompanhado de risco, culpa e manipulação.
Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o filme permanece tão inquietante. Ele não diz que crescer é maravilhoso nem que crescer é uma tragédia. Mostra que as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo.
O filme é sobre sexualidade, religião ou medo?
Sim — mas não de modo separado.
Valerie e a Semana das Maravilhas junta amor, medo, sexo e religião num mesmo espaço simbólico. A religião surge como promessa de proteção e também como mecanismo de controle. O desejo pode parecer uma descoberta bonita, mas também pode ser usado contra alguém vulnerável. O medo não mora apenas nos personagens estranhos; ele aparece nas regras, nos julgamentos e na possibilidade de perder o controle sobre a própria vida.
Por isso, assistir ao filme buscando uma única interpretação pode ser frustrante. Ele não funciona como uma alegoria com legenda escondida. Não há um símbolo que corresponda sempre à mesma ideia. A imagem pode ser erótica e ameaçadora, cômica e perturbadora, inocente e cruel.
O que torna a estética de Valerie and Her Week of Wonders tão especial?
A beleza do filme não é apenas decorativa. Ela cria uma armadilha delicada.
As imagens têm o brilho de uma ilustração de conto de fadas, mas existe algo deslocado nelas. O cenário parece antigo, quase medieval, embora a história esteja ligada aos conflitos de uma jovem moderna. As cores, os rostos e a música produzem uma atmosfera encantadora; ao mesmo tempo, pequenos detalhes avisam que aquele encanto pode se transformar em pesadelo.
Essa combinação faz com que o espectador baixe a guarda. Você se acostuma à beleza e, quando percebe, já está dentro de uma cena difícil de classificar. O filme não precisa recorrer o tempo todo ao susto. Ele cria uma inquietação mais persistente, aquela que nasce quando a realidade parece bonita demais para ser segura.
A descrição do Prime Video chama a obra de um conto de fadas não linear, ambientado numa paisagem quase medieval, e destaca sua fotografia, sua música e suas fantasias surrealistas. É uma maneira bastante precisa de entender o apelo do filme: Valerie and Her Week of Wonders é visualmente deslumbrante, mas sua beleza nunca é completamente inocente.
Valerie e a Semana das Maravilhas é um filme de terror?
Depende do tipo de medo que você procura.
Se a expectativa é por um filme de terror convencional, com uma ameaça definida, sustos frequentes e uma narrativa que conduz até uma explicação final, talvez a resposta seja não. Mas, se você entende o terror como a sensação de estar preso num mundo em que as regras mudam sem aviso, então há muito de assustador aqui.
O filme trabalha com o medo do corpo, do envelhecimento, da violência, da autoridade e da perda da inocência. Também existe um desconforto particular na forma como Valerie é observada e desejada por adultos. Ela está descobrindo a própria sexualidade, mas essa descoberta acontece num ambiente em que outras pessoas tentam impor sentidos ao seu corpo.
Por isso, vale considerar a classificação indicativa e os avisos associados à versão disponível no Prime Video, que incluem nudez, violência, cenas assustadoras e conteúdo sexual. A recomendação não é assistir esperando uma fantasia leve. O filme pode ser delicado nas imagens e duro nas implicações.
O que esperar antes de assistir ao filme de 1970?
Espere uma experiência mais próxima de um sonho do que de uma narrativa tradicional.
Você não precisa conhecer o cinema da Nova Onda Tchecoslovaca, nem chegar com uma interpretação pronta. Também não precisa tentar entender cada acontecimento na primeira passagem. O melhor modo de assistir é aceitar que algumas cenas vão permanecer abertas.
Observe como os personagens se comportam quando Valerie está presente. Repare no modo como a casa, a igreja, o cortejo e os espaços naturais mudam de significado. Preste atenção aos brincos, aos rostos que retornam e às situações que parecem se dobrar sobre si mesmas. O filme conversa muito por repetição, contraste e atmosfera.
Se você costuma gostar de Alice no País das Maravilhas, contos de fadas sombrios, cinema surrealista, histórias sobre amadurecimento ou filmes que misturam erotismo, simbolismo e fantasia, provavelmente encontrará algo muito forte aqui. Se prefere narrativas diretas, talvez seja melhor assistir sem a obrigação de decifrar tudo. A experiência fica mais rica quando você permite que algumas imagens simplesmente permaneçam dentro de você.
Onde assistir Valerie e a Semana das Maravilhas?
A Prime Video apresenta Valerie and Her Week of Wonders em inglês, com opção de aluguel ou compra em HD, legendado em inglês, conforme a disponibilidade indicada no catálogo. Como os direitos de exibição podem variar por país e mudar com o tempo, vale conferir a sua região antes de decidir.
A MUBI também mantém uma página dedicada ao filme, identificando o título original Valerie a týden divů, a direção de Jaromil Jireš e a produção da Checoslováquia em 1970. A plataforma o classifica entre o cinema de vanguarda, o drama e a história LGBTQ+, além de apresentar uma avaliação editorial positiva e uma sinopse centrada na passagem de Valerie entre sonho e realidade.
Por que esse filme continua atual?
Porque a passagem para a vida adulta ainda é cercada por discursos que tentam falar no lugar dos jovens. A família, a religião, os costumes e o olhar social continuam disputando o direito de definir o que alguém sente, deseja ou deve temer.
Valerie não vive apenas uma semana estranha. Ela vive o momento em que começa a perceber que o mundo dos adultos não é tão coerente quanto aparenta. As pessoas que deveriam proteger podem controlar. As histórias que prometem ensinar podem esconder violência. O desejo de ser livre pode vir acompanhado de incerteza.
É nesse ponto que o filme de 1970 deixa de ser somente uma curiosidade do cinema tcheco e passa a conversar diretamente com quem assiste. Talvez você não reconheça a cidade, o cortejo ou os personagens, mas reconheça aquela sensação de olhar para uma regra antiga e perguntar, pela primeira vez, quem se beneficia dela.
A semana de Valerie termina, mas o filme não fecha completamente a porta. Ele deixa você do lado de fora, com a impressão de que ainda há alguma coisa acontecendo naquela casa, naquela floresta ou naquele sonho. E talvez seja exatamente essa a sua maior maravilha: depois de assistir, você continua tentando separar o que viu do que sentiu.


